por Dr. José Carlos F. Diniz Gama
Será que existe uma equivalência no conceito que fazemos das três coisas que essas palavras exprimem?
Vamos, em primeiro lugar, procurar entender o significado da palavra ciência. Habitualmente ela define um modelo de conhecimento, mas seria interessante se pudéssemos nos reportar à origem de seu significado.
Curiosamente nós a empregamos com seu sentido original, e nem tomamos ciência disso. Aqui, ciência está com seu sentido original, e refere-se ao ato mental de perceber um fato e tomar uma atitude pela racionalidade reflexiva sem um aprofundamento do pensamento, sem uma participação interativa do sujeito com o fato. É o que ocorre também quando paramos nosso carro ao tomarmos ciência que o sinal ficou vermelho.
Percebam que este ato mental existe e precisa de uma palavra para defini-lo, e a palavra é esta, derivada de scientia do latim. Encontramos outra palavra com o mesmo significado que é notar, derivada do grego, gnose.
Não há nenhuma dúvida que este ato mental reflexivo existe e é definido por esses dois vocábulos, sendo que o ato reflexivo pode ser apenas uma atividade neuronal instintiva, como por exemplo, gritar ao receber um susto, ou condicionada, quando paramos no sinal vermelho.
Ciência é um substantivo, mas também existe o verbo cientificar, que é pouco usado. O hábito deu preferência à expressão tomar ciência, como sinônimo de notar.
Neste ato mental reflexivo não temos a participação do lobo frontal, e o ato é ativado pelo sistema límbico, sem a participação de um pensamento onde o sujeito poderia tomar a atitude de participar, ou não, interativamente com o fato.
Percebendo o fato nós podemos ampliar a observação aprofundando o pensamento que segundo Descartes é aquilo que nós somos; o Res cogito (Eu penso, logo existo). Mas, assim como penso, devo duvidar do que penso, porque não sou perfeito. Só existe um pensamento perfeito, que é outra coisa, é o Res Infinita, que é Deus. Tudo além dessas duas coisas é o Res extensa, que é outra coisa além de Deus e eu, é a matéria.
Partindo desta idéia de Descartes, aconteceu um aprimoramento do ato de observar utilizando principalmente a racionalidade lógica orientada pela Lógica, como ciência formal. Assim sendo, nosso pensamento, o res cogito, atua sem se envolver com o objeto observado, o res extensa que é outra coisade observar utilizando principalmente a racionalidade l .
Se acontecer um envolvimento do observador com a coisa observada, o pensamento deixa de permanecer separado do objeto, passando a existir um processo interativo, e aquilo que era apenas ciência, um fato isolado, transforma-se em fenômeno, onde o sujeito participa junto com a ciência, originando a consciência.
Desta reflexão podemos concluir que a Ciência como está instituída, e perante o dogmatismo do Método, em primeiro lugar ela não é livre. (Segundo Kierkegaard é impossível provar que temos liberdade, porque essa prova envolveria a necessidade lógica, que é oposto de liberdade.).
Em segundo lugar ela não é responsável, porque a responsabilidade não é atributo do fato, e sim do sujeito, e segundo Morin, a responsabilidade não tem sentido senão a um sujeito que se percebe, reflete sobre si mesmo, discute sobre ele mesmo, contesta sua própria ação. Portanto, ser cientista é ser literalmente irresponsável por profissão. Isso não quer dizer que o cientista não seja responsável. Ele se sente responsável. Mas ele deve tratar esse problema da responsabilidade como qualquer cidadão.
Se o cientista, por princípio, não é livre nem responsável, não é humano, pois são essas duas características que nos diferem dos outros seres vivos.
Aparentemente estes argumentos parecem estar denegrindo os cientistas, mas não, são apenas deduções conduzidas pela racionalidade lógica a partir de conceitos e premissas convencionais. Nem todos os cientistas apresentam esse comportamento frio como está descrito, porém, estes são em geral marginalizados ou contestados a não ser que haja um interesse pelo poder dominante.
Esta descrição do perfil do cientista não desvaloriza a ciência, cujo progresso extremamente importante, particularmente durante o século XX, é incontestável, porém, o cientista sendo irresponsável e sem liberdade foi presa fácil da tecnologia lucrativa, da qual a ciência tem sido sua escrava e fiel servidora, fundamentada em sua ideologia e seus dogmas.
Não há dúvida que o progresso tecnológico foi muito importante e trouxe um maior conforto para a sociedade, porém, por ser irresponsável e sem liberdade, também não há dúvida que é a causa de inúmeras desgraças que antes não existiam. Este assunto é vasto e não é o momento para discutirmos.
Vejamos agora quando o sujeito interage com o objeto e faz com que a ciência tenha algo mais junto a ela, e faz surgir a consciência. O que seria esse algo mais? Não é objeto da ciência, pois não é possível localizar, não é possível medir, não é possível reproduzir, portanto não existe. De fato esse algo mais não existe, não pertence à existência, é a origem dela, é a essência.
Com a linguagem da ciência convencional obviamente não é possível discutir este assunto. Porém, a discussão torna-se possível se utilizarmos o pensamento da Declaração de Veneza, colóquio realizado em 1986 sob tutela da UNESCO, que declarou que a ciência havia chegado aos seus confins, e só poderia sobreviver se interagisse com as tradições e a filosofia. Desta forma teríamos um saber mais próximo da realidade, interagindo a racionalidade lógica da ciência, a racionalidade intuitiva da filosofia e a racionalidade inspiracional das tradições..
Vejamos resumidamente como alguns fatos da história que estão em sintonia com este novo posicionamento e nos foram sonegados em nossa educação.
Anaximandro (610-545 AC) em sua intenção de buscar um elemento primordial chega à conclusão que o princípio de tudo é o apeíron (peiron=experimentar). É o indeterminado, o inexperimentável. Significando também o espacialmente indefinido, quantitativa e qualitativamente. Percebam o quanto está próximo do Principio da Incerteza.
Heráclito (544-484 AC) afirma que a medida de tudo é o logos, que é simultânea e paradoxalmente o sentido transcendente com significado imanente. Este conceito não está próximo, é a própria Teoria do Bootstrap de Geoffrey Chew dentro da física quântica, que afirma: Na natureza não existem estruturas fundamentais, o que há é uma autoconsistência. Um padrão coerente de interações dos elementos entre si e com os demais elementos. Deste padrão surge a matéria e a energia.
Anaxágoras (500-428 AC) foi o professor de Sócrates que também foi condenado à morte ou deixar Atenas. Como era jovem preferiu deixar Atenas, para nossa sorte, senão não teríamos Sócrates, nem Platão, nem Paulo, nem Agostinho e a civilização ocidental seria outra pelo efeito borboleta. Anaxágoras nos ensina que os princípios materiais das coisas são infinitos, e a força que os faz mover é a mente. A mente (Nous) seria uma força superior capaz de organizar as partículas dispersas, transformando o caos em cosmos (um mundo ordenado e belo). Segundo Gregory Batenson (1904-1980 DC), mente é o padrão que une. E aparentemente a teoria da Matriz S de Werner Heisenberg é muito semelhante. É aquilo que faz ser, é o conjunto de probabilidades para todas as reações possíveis envolvendo hadrions e interação forte.
Demócrito (460-370 AC). Chegou ao nosso entendimento que ele idealizou o átomo, como elemento indivisível e constituinte da matéria. Porém a sua filosofia foi mais ampla e ele afirmou que a realidade era explicada a partir de dois princípios; esse que todos conhecem e que ele chamou de pleno (o ser), e o vazio (o não-ser). O vazio é algo real, ainda que não seja material. Demócrito seguramente estava se referindo à existência e essência. Ficou no esquecimento.
Leibnitz (1646-1716 DC). Afirma a presença de uma realidade metafísica adjacente ao mundo material, e que lhe dá origem.
Estes são apenas alguns pensadores, cujas afirmações ficaram no esquecimento, apenas por não serem lógicas.
Voltemos agora ao surgimento da consciência. Esta palavra é constituída de um sufixo, ciência, que já sabemos do que se trata, e um prefixo, com, que significa, junto a. Como ser responsável cabe a nós buscarmos uma resposta coerente para sabermos o que está junto à ciência e podermos saborear o sentido de consciência. Já afirmamos anteriormente que se trata da essência.
O que é essência? Vamos utilizar o Aurélio para nos auxiliar. Segundo seu entendimento é: 1-Aquilo que constitui a natureza das coisas. 2- O que constitui o cerne de um ser. A explicação está clara, porém ele nos apresenta duas qualidades da essência. A pergunta continua. O que é essência?
Aquilo que constitui a natureza humana e que é o cerne do ser humano é a espiritualidade.
Vamos agora procurar entender o que é espiritualidade. Segundo Konrad Lorenz (fundador da etologia e detentor do prêmio Nobel de medicina em 1973): O espírito humano é uma conseqüência social, um efeito social. Eu já disse que um homem, tomado por si só, nem homem é: só na condição de membro de um grupo dotado de espírito humano pode tornar-se completamente homem.
Dentro dos princípios da psicologia humanista, terceira força da psicologia, e da psicologia transpessoal, quarta força, podemos compreender a espiritualidade por três facetas:
1 – Uma interação do homem consigo e com os demais. Aqui há um acordo com Konrad Lorenz e com a teoria do bootstrap, já citada anteriormente.
2 – Esta interação é mantida harmônica pela vivência dos valores, assim como a harmonia interativa dos hadrions é mantida pela interação forte, interação fraca, eletromagnetismo e gravidade.
3 – Orientação ao Sentido da Vida, o Ponto Ômega de Teilhard de Chardin, a compreensão do para que existir, o atrator universal de todos os fractais da natureza.
É preciso que fique claro que a espiritualidade não pertence ao homem, como o cérebro, o coração, pulmão e a psique. Ela participa e dá vida ao homem, assim como a energia elétrica, não pertence à nossa casa, participa de nossa casa, iluminando-a e movimentando-a, e chega até nós pela rede elétrica a partir de sua fonte geradora.
Parece que temos mais uma questão. Qual é a fonte geradora da espiritualidade?
Não seria o Apeíron de Anaximandro, o Nous de Anaxágoras, o Vazio de Demócrito, a Mente de Bateson, a Realidade Metafísica de Leibnitz, ou Logos de Heráclito?
Talvez possamos concluir que consciência é uma conseqüência interativa da essência humana, a espiritualidade e sua profunda capacidade de observação, a ciência.
Resta-nos discutir o que é conhecimento. Parece-nos que essa palavra seja evolução, ou do latim, consciência, ou do grego, cognição.
Quanto à consciência já discutimos. Cognição, embora tenha o mesmo sentido, porém oriunda do grego, tornou-se hábito entender esta palavra para designar os fenômenos fisiológicos celulares que ocorrem durante a atividade da consciência, e a conseqüente fisiologia de memorização, dando como resultado um conteúdo que é definido por conhecimento ou saber humano.
Dr. José Carlos F. Diniz Gama é médico Faculdade de Medicina de Sorocaba (PUCSP). Doutorado em Patologia, Ex-Professor de Patologia, ex-Professor de Histologia, ex-Professor de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP), ex-Professor de Histologia da Faculdade de Medicina de Marília. Ex-Pesquisador de Patologia da Nutrição pela OPAS na Universidade da Califórnia (Davis). Clínico Geral com especialização em Homeopatia, formação em Logoterapia, membro do GECAF (Grupo de Estudos do CAOS e Fractais - Dpto. de Física, UNESP, Botucatu).
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