por Prof. Dr. Wilhelm Kenzler
Janela aberta. Paisagem des-coberta. Ar parado. Mar azulado.
O verde, prateado. O verão pasmado...
O olhar procura. Lá... bem lá fora. Cá... bem cá dentro. Vai... e vem... e volta...
Procura. Pro-cura? Quem? O quê? Aonde? Por que? Pra quê? Prô-quê? Pró-"cura"?
Tudo parece certo. Tudo tão perto.
Tudo aí: Casa – Calor. Mar – Sol. Verde – Prata. Férias – Eu.
Ubatuba – São Paulo. Brasil – Mundo. Fevereiro-94. Pronto!
Pronto!
Tudo OK!!! Tudo...??? Que é "tudo"? E OK? O que é?
Ó, minha alma! Por que assim atormentada?
O que mais queres ver? O que ainda queres saber?
Não te basta apenas ser? Quem és tu afinal – humano ser?!
Pára!!! Chega!!! (Pó!... Relaxa... e goza)
"Não sei... não sei... não sei... (cantando, sussurrando, sonhando...)
De repente! Súbito!
Algo, num galho, se mexe. Remexe. De novo. Se encolhe. Retorce. Pula. Salta. Voa. Volta. Se encolhe... e... me olha! Uma curva amarela, redonda, comprida, estufada, enfunada, qual peito emplumado, dois losangos escuros – como asas – cobrem, descobrem, recobrem e ainda... uma bolinha pretinha – qual cabecinha – com fitinha, amarelinha, e por fim um bico... pontudo, um par de olhos... agudo... me olha! Curioso! Assustado? Irrequieto... Perplexo?
Ou sou eu? O curioso, assustado, irrequieto, perplexo?
Agora fascinado, deleitado, encantado. Vendo, aquele que me vê.
Sendo visto, pelo bem-visto. Ouvindo e dizendo: "Bem-Te-Vi".
Vi, vi Bem. Te Vi. E entendi. Compreendi.
É. É você. Agora sei. Quem fez o remelexo, quem foi o autor do buxixo. Que bom. Obrigado.
Agora descanso. Tranqüilo. Satisfeito: "Era apenas um Bem-Te-Vi". Olha só. Lindo! Não é maravilhoso?
Tudo isto aí: O mar, o sol. o verão, o peixe n‘água, a flor no pé. Bem-Te-Vi cantando.
E eu... cismado. De novo perguntando: quem fez tudo isto aí? Quem será? Fez como? E por que, né? É... ei, pera aí! Psiu! Ei! Bem-Te-Vi!!! Lá se foi... sumiu... Para onde? Nunca mais o verei? E Eu? Para onde irei? De onde vim?
Este misterioso, fascinante, inquietante "remelexo" todo... que é a minha vida, a vida de cada um, de todos nós... o que é? Que quer? E por quê?... Estamos aqui! Agora. Sentindo, achando, sabendo que existe um "lá", uma "além" e um "então", um "outrora".
E nós "cá" e "lá". Nem bem cá, nem bem lá. Cá e lá em tudo um pouco, em lugar algum.
Entre cá e lá – entre agora e outrora – eu, nós, essa mente inquisidora, curiosa, entre a busca esperançosa e a conformação resignada.
Cidadão de dois mundos, com nosso eu consciente de sua ignorância, buscando o conhecimento, buscando a identidade nossa e do "tudo", a grande visão abrangente, uma cosmovisão universal, que nos esclareça, nos permita compreender quem são, de onde vieram, para onde vão os "Bem-Te-Vis" da vida...
Tomo consciência, acordo (abro a janela), olho, vejo pontos e linhas: formas. Vejo luzes, sombras. Matizes, nuances: cores. Ouço os ruídos e os sons, cheiro os perfumes e os odores, degusto os gostos, tateio o frio e duro, o quente e suave...: o mundo dos fenômenos materiais é percebido, em forma de sensações (impressões dos órgãos do sentido) e imediatamente associado mentalmente (pelo pensar) a conceitos, idéias abstratas que decodificam o mundo bizarro de formas e cores, de sabores e odores, e organizam em conceitos, em "nomes" que definem, localizam e esclarecem à mente indagadora a essência, a natureza do fenômeno.
Dou nome ao fe-nômeno (O nome da rosa). As sensações (impressões sensoriais) (cores, calor, luz, formas) são coligadas, reunidas - pelo processo sintetizador do pensar – em percepções (água, terra, planta, movimento, bem-te-vi) que são por sua vez reunidos em categorias mais abrangentes (verão, mar, férias, casa, Ubatuba, etc). O meu sistema neurossensorial me permite captar impressões sensíveis, formar percepções, consultar a memória, formar conceitos, nomear os fenômenos, processar e integrar as informações que alimentam o conjunto de conhecimentos: a ciência do mundo dos fenômenos.
No momento que este "processo científico" (de tomar ciência) se reflete sobre si mesmo, toma ciência de sua própria existência como objeto, se apercebe a si próprio como observador deste objeto que é a sua existência (corpo, vida, sentimentos, pensamentos, biografia, etc), surge a "ciência de si mesmo", a "con-ciência" ( Bewusstsein : estar, ser consciente) (não ainda Gewissen : consciência moral).
Neste instante se instala a separação entre eu e o mundo, a ruptura da unidade com o meio ambiente, a expulsão do paraíso, o "big-bang" do nascimento da individualidade, a fenda primordial ( Ur-sprung = origem), a cisão da mente ( Schyso-phrenia ) inerente à condição humana, o pecado original ( Ur-sünde ); ( Sünde = pecado, deriva de Sonderung = separação) que é a origem da "angústia existencial", da perda da "confiança básica"; é a essência da "doença natural" do homem, da "enfermidade intrínseca da condição humana", a "doença do ser humano".
A consciência desta separação (= pecado) forma a "consciência moral" ( Gewissen ).
Esta "doença essencial" em nível do pensar e sua manifestação anímica como "angústia existencial" é a temática fundamental do assunto da "cura".
Esta "doença" básica, que paradoxalmente faz parte intrínseca da "saúde" (no sentido maior do termo, pois o homem que não a tem não é realmente homem) vai se manifestar na alma como sensação de separação, de isolamento, de estar perdido, desprotegido, desamparado, gerando progressivamente os sentimentos de angústia, medo, desespero, pânico.
A alma (o mundo das emoções) se defende: tenta lutar e – ou – fugir: sem sucesso na luta, sem chegar a lugar algum na fuga, sem resposta à perplexidade, instalam-se a resignação, a tristeza,
a depressão... a melancolia.
Tentando se defender (mecanismos de defesa) a alma o eu anímico) cria e usa mecanismos de defesa: "esquece", reprime para o estado de inconsciência. Expulsa da consciência, a angústia anímica pode se deslocar para o campo do pensamento gerando perturbações mentais, ao âmbito das ações, produzindo distúrbios do comportamento social (relações humanas, trabalho) ou ainda se expressa na esfera sexual. Pode se deslocar também para o campo físico gerando tensões corporais, disfunções viscerais (sintomas neurovegetativos) que podem se tornar crônicas e se organizar em enfermidades, as "doenças psicossomáticas".
É "angústia d‘alma" metamorfoseada em "dores do corpo", em padecer mental, social ou sexual. É a "linguagem dos sintomas" a ser interpretada e vertida para sua versão original (anímica) pelo médico ou terapeuta, pelo "curador" (cura-dor). É a "loucura", é o estar "fora do lugar" (lócus = lugar) que precisa ser colocado no seu lugar. Ser curado.
Curado o sintoma ressurge a angústia.
É a volta à questão original?! A questão inerente ao estado sadio.
A dor existencial: existo, estou só, separado, isolado. O que é tudo isto (este mundo de formas, cores, de cheiros, sabores, alegrias e dores??)
E eu, quem sou? Sou alguém?! Vim de onde? Para onde vou? Por quê? Quem és tu? Tu, aí do outro lado, aí fora, por trás de tudo isso... e de mim. Que queres? Por que fizeste isto? Que fiz eu? Mereci? Me separei? Tenho culpa? Vergonha? Mas eu não sabia! Não fui eu! Foi ela... a mulher, a serpente... e foste TU que a fizeste!
Tenho raiva! Tenho medo... pavor... horror...
Os três passos (ou salto triplo)
1. Chorei, gritei. Esperneei. Como criança-humana. Como humanidade-criança. Dormi. Esqueci: em teu colo me recolhi.
Rezei, orei... à tua essência – pela fé – me religuei.
Tuas revelações acreditei. Teus pensamentos obedeci. Minha religação pratiquei. Fiz o bem. Na fé te achei, minha angústia superei, minha paz reencontrei. Me curei. A religião cura. É cura. É a re-ligação pela fé.
2. Mas, aos poucos vou acordando. De novo, novas janelas abrindo. Descobrindo. Vendo (formas, cores, sons, movimentos em ritmos, relações, seqüências, proporções), evocando em imagens sensoriais (abstratas, concretas, realistas, simbólicas, gestuais, etc) as idéias imanentes e subjacentes aos fenômenos. Pintando. Esculpindo. Construindo. Dançando. Me religando ao grande mundo das idéias, ao TODO.
Agindo. Criando. Fazendo. Fazendo arte.
Portanto: A Arte cura. Sim. A arte é uma cura. É o produto – e meio – da busca de cura. É o meio no sentido de centro e no de instrumento.
E, no entanto, pensando bem, indo adiante, não sentindo apenas, mas pensando: este mundo da arte é, literalmente, muito belo, harmônico e bonito... mas... mas eu quero mais, eu quero "saber", "entender".
É lindo ouvir a música, me transportar em sua harmonia ao mundo perfeito; as artes, ungindo a matéria com o gesto humano-divino da criação, me fazem comungar novamente com o Todo do qual me via – e sofria – separado.
É lindo. É bom. É bastante... Durante algum tempo.
3. Até acordar em mim – na puberdade da criança (aos 13-14 anos), no "Renascimento" (séculos XII-XIV) da humanidade – o "pensamento" que quer examinar e pensar o mundo físico-material, esta concretude sensorial, este corpo que sente prazer e dor, que nasce, procria e morre e assim buscar seu mistério imanente, sua verdade subjacente, sua lei.
Eu quero saber – conhecer no pensamento. Racional. Intelectual. Não apenas "sentindo " tua beleza e criando o belo, na arte.
Nem tampouco me entregando à fé e praticando o bem. Eu quero agora "saber", no pensar, a verdade. Ser – como o Pai – (o Deus) – onis-ciente. Recomeço a busca: agora observo, descubro, corto e disseco. Meço e peso. Analiso. Pondero e combino. Reconstruo. Experimento. Comparo. Vou ao detalhe. Divido. Me especializo. Sei cada vez mais; de cada vez menos. Tento unir. Re-unir. Faço a uni-versidade.
Torno- me enciclopédico. Até o limite. Não suporto. É demais. Perdi a visão do todo. Explode a consciência. Desisto de ver o todo. E começo a duvida. Existe o todo? Deus existe? Não seria o todo apenas a soma de todas estas partes que posso conhecer? Não é o Deus – o Todo Universal – apenas uma criação minha, um desejo de ter um Pai, fruto de minha angústia de não ser eu um Deus?
Deus começa a ser uma "hipótese dispensável" no universo científico.
De curioso e questionador a cético e agnóstico é um passo.
Poucos séculos na humanidade. Poucos anos no indivíduo. Uma adolescência. Sou adulto. Moderno. Objetivo. Realista. Especialista. Materialista. Cientista. Vou praticar os meus conhecimentos e criar – eu – meu mundo – um "admirável mundo novo". Com a tecnologia, aumentar o poder dos meus sentidos: R-X, ultra-som, raio laser, ressonância magnética, radiotelescopia, ultramiscroscopia eletrônica: tudo verei, ouvirei tudo. Tudo! O todo? Tudo saberei. Tudo farei.
Tudo! Do milho híbrido ao bebê de proveta: um passo.
Do controle da vida ao da morte: da anticoncepção à eutanásia; da engenharia genética ao aborto eugênico; da modulação psicofarmacológica à manipulação das massas... e tantas e otras cositas más . Que prazer... Que poder! Que glória!!!
Sinto-me bem. Consciente ( Bewusst : sei que sou). Sem culpa. Sem vergonha. Sem consciência moral ( Gewissen ). Sem questões éticas. Sem angústia. Sem dor. Apenas (pigarro) "é natural", um pouco de stress , uma pequena agitação, um "discreto mal-estar", mas "tudo bem", "não é nada", não. Vem cá.
Tive uma "boa idéia". Um happy-hour com um "bom traguinho". E um cigarrinho. À noite? Um Valium. É uma beleza. De dia: o Prozac. Já experimentou? É fantástico! E pra dor? Ora, Anador! É isto aí. É isto aí, que aí está. É a ciência no lugar da religião. E no lugar da arte. Seu método: o único ; seu resultado: dogmático. Com seus "Papas, profetas e santos" (Prêmios Nobel, reitores e professores) cobrando seus dízimos... e como as religiões, quando decadentes... prometendo o Céu na Terra... (o "bem-estar físico, psíquico, social").
O homem ainda evita, ignora, adia o caminho longo, infindo, lento e paciencioso da busca de re-integração pelo despertar e desenvolver interior, pela conquista da re-ligação com o Cosmo Criador por meio da integração dos três caminhos: fazendo o bem, sentindo o belo, conhecendo a verdade, assim re-unindo religião, arte e ciência numa "Humaníssima Trindade", aproximando-se, num vir-a-ser eterno, do Criador e seu mistério da Trindade Uma.
Este é chamado de "Santíssima Trindade", Santíssima... santa... san(t)a, sana – sanidade – saúde.
Saúde é o objeto de cura. Saúde é a contração etimológica de san(t)idade.
Tornar-se sã, readquirir a saúde ocorre na medida em que superamos as doenças que são a manifestação (direta ou remota) da cisão, da separação original – evocada nos mitos filo e ontogênicos da humanidade – e vivenciada, por cada um de nós em sua intimidade, desde o primeiro vagido ao último suspiro.
A prática religiosa, a sensibilidade artística, a pesquisa científica são as manifestações nos campos do agir, sentir e pensar da busca humana no seu caminho de religação, de unificação, de retorno ao "Paraíso Perdido".
Volta agora não mais como criatura inconsciente, mas com par do Criador. Também conhecedor do bem e do mal; conhecimento adquirido na Escola da Vida, trilhada por livre vontade interior. Sem vontade, decisão de aprender, não há progresso.
A ciência (mesmo uma ciência ampliada pela inclusão do extra-sensorial, do subconsciente e do metafísico) vai trazer "apenas" a iluminação da consciência, a "visão interior" (o insight ), porém permanecerá fria e estática.
As re-ligiões – como instrumento volitivo de re-ligação – fazem de nós (alimentados pela revelação da fé) homens bons, generosos, obedientes, porém na forma de uma beatitude inconsciente e ingênua. Seremos ovelhas do rebanho de algum pastor. (Qual?)
A arte – como busca solitária – evolui da reprodução primitiva em imagens das lembranças sensoriais (pintura das cavernas) à reprodução moderna de nosso angustiado e dilacerado vazio interior, produzido pela consciência materialista e preenchido por fantasmas anímicos, frutos do pânico e do horror.
A arte pode construir – por meio do sentir e fazer estéticos – a ponte entre o verdadeiro entendimento (sabedoria da verdade) e o retro-agir (exercício da bondade), expressando a percepção da harmonia divina, subjacente à beleza dos fenômenos do cosmos, entusiasmando o coração (sentimento) humano – centro do homem interal (físico-espiritual) – que anima então o homem volitivo à ação. Esta ação é orientada pela luz da consciência, pelo saber; é aquecida pela alegria da sintonia emocional com as imagens (visões interiores) da harmonia estética das leis cósmicas: tem sua força na vontade de viver (Eros) – no impulso volitivo da vida – agora libertada da meta de mera sobrevivência física para servir à manifestação da vivência do transcendente no plano da materialidade terrena, da encarnação humana.
A arte com suas cores, formas e sons, melodias, ritmos e métricas, movimentos e gestos, usando seus materiais sensoriais (sons, cores, terra, corpo, palavra...), descobrindo e obedecendo às leis imanentes a cada material e usando suas possibilidades de composição e expressão – cria um mundo (arte-ficial) que evoca à alma as condições da criação universal, re-ligando-a no sentir, à sua origem. Cura assim, a sua doença básica (sentimento de isolamento) pela base etiológica.
Esta arte fará sentir o que uma verdadeira ciência (não parcial e unilateral) fará saber e o que uma religiosidade primordial levará a fazer.
Pensar e agir integrados pelo sentir: sistema neurossensorial (cérebro + órgãos dos sentidos) e sistema metabólico-motor (digestivo + músculo-esquelético) integrados pelo sistema rítmico (cardio-respiratório).
A arte é, nesta correspondência, o coração-pulmão do homem espiritual; o coração e o pulmão fazem circular e arejar o sangue entre cabeça e membros; a arte movimenta o sentimento entre o pensamento e a vontade, nutrindo ambos e unindo-os num caloroso e belo abraço que desperta a experiência deleitosa da unidade interior, da plenitude, da concretização do ser no mundo da saúde, de cura, algo próximo à "felicidade"... algo efêmero a ser continuamente renovado, como a respiração e a circulação do sangue.
Esta manifestação do transcendente ao mundo, revela livremente, criativamente, individualmente na harmonia de suas imagens a suprajacente verdade e a subjacente bondade de Criação Universal. A sua relação individual com o artista confere a este a condição de representante paradigmático da individualidade humana, no exato instante do ato criado.
Johannes Kepler deu à sua famosa obra – uma das bases da moderna ciência – A mecânica dos corpos celestes , o subtítulo De harmonicis mundis (Da harmonia dos mundos), expressando assim, já no título, sua convicção de que os conhecimentos científicos que inaugurava eram a manifestação das grandes e harmoniosas leis cósmicas (divinas) e o fez, unindo em suas considerações, objetividade científica e veneração religiosa, numa integração artística em que a revelação intelectual da verdade desperta sentimento de devoção iluminada e respeitosa veneração (res-peita = res-specta = olha a coisa, vê, entende). O homem não se submete mais cegamente, como criança, mas "olha a coisa", respeita e dês-cobre "o que é" e se integra por livre decisão e vontade, ao que descobre, ao plano da Criação, revelado nas leis científicas ao entendimento humano.
Este subtítulo, De harmonicis mundis , bem como a dedicatória a Deus foram abolidos posteriormente pelos cientistas que ficaram apenas com a versão reducionista (materialista) que nos é ensinada nos cursos secundários: a mera "mecânica" dos corpos celestes.
Cabe à arte – revificada e ressuscitada para seu papel mediador – devolver a beleza da harmonia celeste, contida, escondida nas leis da mecânica à consciência do homem, por meio de suas obras que falem ao sentir, ao coração do homem. Este sentimento cordial, este coração sensibilizado fará a ponte entre a consciência do pensar e a força do agir.
Esta arte estará contribuindo para a "grande cura" – a sanificação básica e essencial, da doença primordial, fonte nativa de todos os males (doenças) físicos, mentais e sociais do ser humano.
Desta conceituação ampla e abrangente (científico-artístico-religiosa) resulta, por um lado, uma ampliação específica em cada setor (social, mental, físico), e em cada subsetor (especialidades) e por outro lado – fundamental – o conhecimento objetivo (pensar), o entendimento compreensivo (sentir) e o trato compassivo (agir) da individualidade doente por meio de autêntico e real encontro humano entre terapeuta e paciente, entre ser e ser, pessoa e pessoa, destino e destino. Finalmente, resulta da integração do conhecimento da arte com o conhecimento do homem (antropologia) a possibilidade do exercício de uma atividade como Terapia Artística (ou – se preferir – Arte-terapia) que é o exercício particular e específico da arte "apenas" como instrumento terapêutico, visando a cura individual.
Será uma arte que precisará se ligar com o conhecimento científico (saber) por um lado e com a prática terapêutica (agir-aplicado) por outro. Exigirá talento, conhecimento, dedicação em vários anos de formação.
Assim também, a ciência que quiser realmente "curar" (não apenas aplacar e dissimular sintomas) precisará de um exercício artístico do seu saber, uma prática científica que atinja e mobilize também o sentir, que acorde o coração, que ative a respiração, que faça rir de alegria, sorrir de esperança, chorar de emoção, de compreensão, de gratidão. Tornar-se "arte de curar" que desperta a vontade de se tratar, isto é, de mudar, de se buscar, se educar, crescer,
des-envolver, se re-encontrar, retomar sua vida, assumir sua biografia, fazendo o bem – amando – como verbo transitivo – aos outros – assim como a si mesmo, na plena consciência a cada instante de sua individualidade, de suas limitações e possibilidades.
Que barulho é este? Ruído estranho. E no entanto – de algum modo, conhecido. "Toc-toc-toc". "Toc-toc-toc". Batidas secas, rápidas, agudas, fortes; seqüência rítmica, 3:1. Curioso.
É no jardim, no pequeno jardim contíguo ao consultório, onde escrevo hoje, outro domingo, agora à tarde, o final desta... desta o quê? (obra artística? reflexão científica? prédica teológica?)
"Toc-toc-toc". Não pára. O vizinho martelando? Não é. Menino atirando pedrinhas? Também não. Silêncio. Me aproximo. Procuro. Busco.
A origem do buxixo. A causa do remelexo. A fonte da inquietação.
A água do conhecimento para a sede do saber. Saber mais. Saber tudo. Sempre. Espio. Esgueiro – sorrateiro – entre pedras e plantas. Espero. Prendo a respiração. – Nada. Silêncio.
Volto. Desisto. "Toc-toc-toc". "Toc-toc-toc". Insiste ele. Eu insisto. – Escuto – Espio – Espero.
Até que... lá está: surgindo detrás do tronco escuro e úmido. É pequeno. Uma bolinha. É estriado de branco, nos lados. A cobertura pe – de novo – escura, marrom-cinza. Um rabo pequeno, duro, forme. Um bico, pequeno também, firme, duro.
"Toc-toc-toc". Bate, que bate e rebate.
O topete – no alto da cabecinha – laranja fogo (!), mais parece um fio vermelho a fixar o rápido movimento, uma mancha rubra, chama fogosa crepitando no art, no ritmo dos estalidos da madeira. "Toc-toc-toc".
Bate, que bate e rebate. Busca o quê? Seu alimento? Seguro. Dizer ao mundo que existe? Também? Cumprir seu destino, integrado nas leis de sua espécie ornitológica? Colaborando para a ecologia do sistema? Embelezando meu jardim? Encontrando a minha alma? Tudo isto... e mais, muito mais. Obrigado, "Toc-toc-toc". "Pica-pau", meu novo amigo. Será pica-pau? (Vou pesquisar). Ajudou-me a terminar o trabalho, ilustrando, uma vez mais, a integração entre verdade científica (tua identidade terrena), beleza artística (tua harmonia graciosa) e bondade amorosa (tua entrega ao destino). Integram-se em minha compreensão, em ti (tua revelação) e se unem – curando por um instante – a doença da separação, re-ligando a cisão, redimindo do homem a paixão.
A BÍBLIA: Velho e Novo Testamento.
FREUD, S. Obras completas, 3ª ed., Biblioteca Nueva. Madri, 1973.
STEINER, R. Arte e estética segundo Goethe, Ed. Antroposófica, 1994.
_________. Verdade e ciência, Ed. Antroposófica, 1985.
_________. Filosofia e liberdade, Ed. Antroposófica, 1988.
_________. O conhecimento iniciático, Ed. Antroposófica, 1985
Nenhum mini-currículo cadastrado.
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