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Sofrimento, Perdão e Fé no Padrão de Auto-organização

por Dr. José Carlos F. Diniz Gama

"Tudo que é dito é dito por alguém. Toda a reflexão
faz surgir um mundo. Assim, a reflexão é um fazer
humano, realizado por alguém em particular num
determinado lugar..."

( Maturana e Varela )

Esta reflexão deu-me a inspiração de escrever este texto, sem a preocupação escrupulosa da mentalidade científica de estar sempre comprovando a origem bibliográfica. Eu penso, logo existo. Eu sou apenas um pensamento ( Res cogito ), como nos ensinou Descartes. E ele também nos ensinou que devemos duvidar de tudo que pensamos porque não somos perfeitos. Só existe um pensamento verdadeiro; é do Res Infinita, que é Deus. Portanto, este ensaio não é uma verdade, mas sim uma dúvida a ser dialogada.

Nosso pensamento é orientado pelo Pensamento da Complexidade, onde a Teoria Geral dos Sistemas faz parte de sua organização e de onde tiramos o conceito de Sistema Vivo que podemos entender como sendo: O complexo de elementos com um padrão de auto organização, orientado para um sentido, por meio de uma estrutura e função, com a participação do processo mental.

O padrão de auto organização também é complexo e infinito, onde os valores participam e dos quais vamos estudar três: Sofrimento, Perdão e Fé.

SOFRIMENTO

Esta é uma palavra com um sentido aparentemente preciso, mas na realidade é ambíguo. Se perguntarmos a qualquer pessoa o que seja sofrimento, todas terão uma resposta imediata argumentando que sofrimento é algo que nos transmite dor, angústia, desespero, medo, uma série de sensações desagradáveis, que tem como sinônimo, a palavra “padecimento”.

Muito bem. Se for apresentada às mesmas pessoas a seguinte afirmação: “O folclore baiano sofreu influência africana”; todas entenderão a afirmação, e nenhuma encontrará qualquer sensação desagradável. O ensinamento da frase é claro, e sofrimento tem aqui o sentido de participação harmônica, consciente, creativa e com sentido.

Sofrimento é uma palavra de origem grega: de sos=orientação e fren=intelecto, ou seja, “orientação da inteligência”. Existe um ramo do conhecimento, a “frenologia”, que estuda a capacidade intelectual humana pela estrutura do crânio e do cérebro. Temos as palavras “oligofrenia”, e “esquizofrenia”, que significam respectivamente: baixa intelectualidade, e intelectualidade fragmentada. “Eufrenia” seria a boa intelectualidade, e “sosfrenia” a intelectualidade orientada, que evoluiu para “sofrimento”.

Outra palavra de origem grega e que também apresenta sentido distorcido é pathos, que é traduzida como sofrimento e interpretada como doença, quando na realidade o seu sentido é o mesmo da palavra latina passio (paixão), e ambas têm o mesmo sentido, ou seja, “participação com dedicação plena”.

Existe um provérbio chinês que diz: As palavras servem para dar significado às coisas. Feito isto elas podem ser esquecidas. Estou procurando alguém que tenha esquecido as palavras com quem eu possa conversar. Nossa idéia é bastante chinesa, e pretendemos dar o significado preciso das palavras para que nosso argumento apresente sentido.

Habitualmente, quando se fala do sofrimento de Cristo, o pensamento é voltado para as 16 horas que esteve sob tortura. Este foi seu padecimento, e que seguramente, por alguns aspectos, não foi tão violento quanto, por exemplo, aos executados no velho DOPS em São Paulo, ou ao de Viktor Frankl durante os três anos que passou em campo de concentração nazista. O sofrimento e a paixão foram Suas atitudes durante Sua existência, incluindo o padecimento. Padecimento não tem valor nenhum, quem gosta de padecer é masoquista, portanto, um paranóico. O valor está na atitude com Sentido apesar do padecimento, este é o autêntico sofrimento de um metanóico.

Na prática podemos entender sofrimento como sendo a atitude tomada em decorrência de um padecimento, e entendendo padecimento como sendo os sintomas da perturbação da estrutura e função do sistema, ou seja, a doença. E aqui teremos aquilo que é descrito pela anatomia patológica, fisiopatologia, e psicopatologia.

Frente a esta situação, o sistema irá responder no seu padrão de auto-organização por uma atitude psíquica, orientando-o a um sentido (a um atrator, conforme os conceitos da geometria fractal que é a linguagem do caos). Esta atitude que é o sofrimento (pensamento orientado a um sentido).

Vejamos agora como entender o sofrimento dentro da patologia, e entendendo patologia com o significado que lhe deu Hipócrates, ou seja, pathos = manifestação plena, e logos = sentido. É o sistema que está perturbado, e não apenas sua estrutura ou função. É o “para que” desta perturbação, não apenas o “porquê”.

Dentro da patologia convencional vamos destacar as doenças que se apresentam com as características que conceituam uma moléstia, cujo conceito é o seguinte: Um complexo de perturbações morfológicas, funcionais e psíquicas, de caráter evolutivo, que se manifestam em um organismo submetido a fatores, frente aos quais ele responde.

São quatro, os modos reacionais básicos do sistema frente a uma perturbação; 1 - Perturbação Circulatória, 2 – Inflamação, 3 – Proliferação, 4 – Degeneração.

Esses quatro modelos são anátomo patológicos, aos quais podemos acrescentar com certa correspondência, as perturbações psíquicas básicas: 1 – Psicose, 2 – Normose, 3 – Neurose, 4 – Perversidade.

O sofrimento sendo uma atitude psíquica terá características algo semelhante às patologias psíquicas, e então teremos os quatro sofrimentos básicos orientados a um sentido incoerente para a entropia, o equilíbrio, a igualdade material, morte.

1 – Resignação, 2- Reclamação, 3 – Retração, 4 – Revolta. Todas estas atitudes conduzem à entropia e a um sentido sem significado, servindo apenas como retro alimentação para ampliar o padecimento, fechando o ciclo doentio. Por isto, padecimento e sofrimento são a mesma coisa na linguagem convencional, não permitindo que possamos evoluir, a não ser que ocorra o milagre da espontaneidade.

Falta agora o sofrimento que nos salva, aquele que restaura a saúde, aquele orientado a um sentido coerente, o ponto ômega de Teilhard de Chardin, o atrator universal da geometria fractal, à sintropia, o “para que” viver, (o salto quântico?). O sofrimento que corresponde a uma atitude de valor, que segundo Frankl, é a liberdade de transformar situação desesperadora em triunfo, o sofrimento regenerativo, aquele que nos conduzirá à autotranscendência, o verdadeiro caminho da vida, conforme as letras de um imortal samba;... Não importa a queda, levanta sacode a poeira e dá a volta por cima... Uma outra vida, agora com Sentido

2 - Esta atitude de valor tem o poder, em determinadas situações, de conduzir a estrutura e função a uma total restauração, e é quando dizemos que aconteceu um milagre.

PERDÃO

Aqui temos outra palavra, também com sentido perturbado e mal interpretado, e frequentemente com características virtuosas. Perdoar vem do latim per + dorare, cujo significado é dar plenamente. Portanto, se houver algum sinônimo para perdoar, somente poderá ser amar. O dar plenamente refere-se a permitir que aquele que errou, tente outra vez e tenha a oportunidade de poder tomar uma atitude de valor. Essa situação de erro, obviamente jamais será esquecida, e aquele que diz: “perdôo, mas não esqueço”, não perdoou, faltou algo, não foi pleno.

Quem perdoa não é o suposto ofendido, mas aquele que ama e ajuda o outro na busca do sentido, mesmo que tenha sido prejudicado pelo culpado.

É comum a associação de perdão com ofensa, mas, na realidade, ninguém ofende ninguém. É o indivíduo que “se ofende” com atitude dos outros (o verbo ofender é mais precisamente um verbo reflexivo: ofender-se).

Somente os fracos se ofendem. Os fortes dão a outra face para bater, ou entregam a túnica quando lhe levam o manto.

Nós que nos ofendemos quando alguém tenta magoar-nos. Se nos mantivermos distantes da atitude do outro, não existirá a ofensa para nós, somente na intenção do outro. Assim sendo, parece que seria mais apropriado à antiga reza do Pai nosso ...perdoai as nossas dívidas..., e com uma pequena e substancial modificação: ...perdoai as nossas dividas, assim como as de todos os devedores para convosco...; estaria mais adequado. No sentido profano habitual, Cristo nunca perdoou, pois Ele nunca Se ofendeu. Ele perdoava a falta de cumprimento dos deveres para com Deus, as dívidas.

Resumidamente, perdoar nada mais é que dar o que o outro precisa para redimir-se. Isto não dói e não nos leva a nenhum padecimento, pelo contrário, tem o poder de restaurar o padrão de auto organização. Alguém disse que para ser feliz é necessário promover cinco perdões; perdoar-se, perdoar seu pai, perdoar sua mãe, perdoar o outro e perdoar o mundo.

Outro erro freqüente é considerar perdoar como sinônimo de desculpar, que, no entanto são duas atitudes bastante distintas. Desculpar significa tirar a culpa, e só é possível tirar a culpa de quem não a tem, e foi injustamente acusado. Quando se tem culpa, nem Deus desculpa, Ele perdoa. Na justiça comum, inocentar é desculpar, a culpa não era do réu, e perdoar, é declarar o culpado solto e independente, jamais, livre, pois a liberdade é uma atitude imanente, não é uma concessão.

A fé é uma possibilidade interativa do sistema vivo, e talvez o ato mental de maior importância do Fenômeno Humano. É uma palavra habitualmente aplicada, porém o seu sentido não é preciso, mesmo nos dicionários.

Quando se fala em fé, imediatamente vem a idéia de religião, no entanto, onde mais aparece esta palavra é no código civil, no código penal, e, freqüentemente, documentos no cartório terminam com: ...dou fé e assino.

A palavra fé tem origem latina de fides, fidelis, cujo significado é: fiel, fidelidade, e refere-se a um ato mental firme, seguro e constante, não admitindo qualquer argumento em contrário, e que deve ser realizado independente de qualquer interpretação.Este ato mental com estas características não surge do nada, nem é necessariamente imposto sem uma racionalidade. Ele está sustentado por uma crença. E aqui novamente vamos encontrar outra palavra que é utilizada sem muita precisão.

3 - Crer não é tomar por certo ou verdadeiro, e sim, perceber a orientação dos valores aceitos, e aceitar é orientar-se segundo um atrator. No Fenômeno Humano, o atrator é o ponto Ômega, o Sentido da Vida.

Antes de tudo, devemos considerar a fé como um fenômeno biológico do sistema vivo. Vejamos por exemplo o cão, considerado o fiel amigo do homem. O ato mental do cão para com seu dono é um ato de fé. Ele não discute, nem argumenta as ordens recebidas, simplesmente executa. Isto ele faz, porque crê em seu dono, e porque percebe a orientação dos valores que recebe; comida, abrigo, carinho, companhia, etc. Ele orienta-se ao seu atrator instintivo e é feliz junto ao seu dono.

Ao pararmos no sinal vermelho do trânsito, quando estamos dirigindo, não pensamos nem argumentamos, simplesmente paramos, e esta atitude é um ato de fé porque cremos no código de transito, e porque percebemos os valores que nele estão contidos. O atrator aqui é a disciplina do tráfego.

O ato de fé nada mais é que o resultado final de uma interação coerente. É a manifestação de uma ordem implicada na crença conseqüente a uma interação de valores.

A fé religiosa é a mesma fé, caracterizada por valores próprios e precisos. Quando alguém diz ter fé em Deus, está na realidade querendo dizer que percebe a orientação dos valores revelados.

Podemos então concluir que FÉ em Deus é a atitude final do processo interativo do fractal gerado pelos valores revelados, cujo atrator é o Sentido da Vida.



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Sobre a Autora

Dr. José Carlos F. Diniz Gama é médico Faculdade de Medicina de Sorocaba (PUCSP). Doutorado em Patologia, Ex-Professor de Patologia, ex-Professor de Histologia, ex-Professor de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP), ex-Professor de Histologia da Faculdade de Medicina de Marília. Ex-Pesquisador de Patologia da Nutrição pela OPAS na Universidade da Califórnia (Davis). Clínico Geral com especialização em Homeopatia, formação em Logoterapia, membro do GECAF (Grupo de Estudos do CAOS e Fractais - Dpto. de Física, UNESP, Botucatu).

Fale com a Autor(a): contato@inic.com.br

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